Caro leitor, recentemente, estamos acompanhando uma triste — mas não nova — situação: a inércia de alguns órgãos públicos em relação aos desastres naturais. Com a chegada do El Niño, muito se tem falado, porém pouco se tem feito diante da inércia de alguns — aqueles que preferem remediar em vez de prevenir e que esquecem o verdadeiro papel de sua função.

Ser indiferente é um grande desserviço à comunidade. Prevenir não seria melhor do que remediar? Acredito que, por questões de ego, a prevenção esteja em segundo plano. Enquanto uns fecham os olhos, outros perdem seus móveis com as cheias — que são centenárias, mas que, ao longo de sua existência, parecem não ter ensinado nada. Ou, pior ainda, há quem simplesmente não queira aprender.

A enchente de 2015, no Vale do Itajaí, foi uma das mais marcantes da década, afetando dezenas de municípios catarinenses, deixando milhares de desabrigados e trazendo à tona a vulnerabilidade histórica da região às cheias do Rio Itajaí-Açu. Vulnerabilidade essa que, novamente, se mostra presente em pleno 2026, pois vários meteorologistas vêm emitindo alertas sobre a intensidade do El Niño — os quais são ignorados por parte de órgãos de proteção, que dizem ter como atribuição principal proteger a população contra desastres naturais e situações de emergência, atuando na prevenção, preparação, resposta e recuperação.

É realmente muito bonito de se ler; porém, na prática, a situação é totalmente diferente. De nada adianta remediar quando se poderia prevenir. Através da prevenção, preservam-se vidas e lares. Mas é difícil entender por que escolhem esperar o leite derramar para depois lamentar as consequências climáticas. Nada resolve, após o leite derramado, fazer vídeos e soltar notas. É muito mais admirável prevenir. Afinal, nossa região tem um histórico que não é de hoje: rios invadem casas, o povo que não tinha nada perde tudo, e o político, depois que as águas baixam, passa, dá tapinhas nas costas e libera valores insuficientes para a reconstrução — apenas para que o cidadão esteja com sua casa pronta para a próxima enchente levar tudo embora.

Tudo isso virou um ciclo vicioso. Talvez não seja interessante investir em políticas preventivas, pois com elas não há estrelismo, não há protagonismo. Não há sobrevoos de helicóptero do presidente. Enquanto o povo foge das águas como pode, alguns comissionados se escondem em seus “castelos”, onde os muros são seus egos e seus portões são banhados pela indiferença.

O povo, mais uma vez, fica à mercê de sua própria sorte. A pergunta é, caro leitor: até quando a prevenção será deixada de lado? Até quando simulações superficiais substituirão um plano eficaz de ação? O negacionismo é terrível — e não está apenas fora da política. Enchentes vão e vêm, e nada é realmente feito. Nossos rios são testemunhas disso. ,

Douglas Corrêa Memória histórica • Direitos humanos • Consciência social

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