Caro leitor, no dia 21 tivemos o feriado de Tiradentes. Para muitos, um feriado qualquer, ao qual, quando perguntado seu significado, dizem ser “um homem enforcado há muitos anos atrás”.

Infelizmente, por aí param.

Joaquim José da Silva Xavier, nascido em 1746, na Capitania de Minas Gerais, foi um brasileiro que lutou até o fim pelos seus ideais, que também eram de outros brasileiros que o acompanhavam pelas estradas desse Brasilzão. Joaquim, apelidado de Tiradentes por uma de suas profissões, era, além de dentista prático (daí o apelido), tropeiro, minerador, comerciante e militar.

Porém, Joaquim ficaria lembrado por liderar a Inconfidência Mineira contra os abusos da Coroa Portuguesa — abusos esses fiscais e econômicos, que exploravam ao máximo a riqueza do ouro em Minas Gerais.

O maior símbolo dessa opressão foi a “derrama”: a cobrança forçada de impostos atrasados, além de taxas pesadas sobre mineração e comércio.

Parece tão familiar, não acham?

Realmente, se formos olhar no noticiário, parece notícia de ontem essa causa defendida por Tiradentes e seus seguidores. Será que só mudou o governo e o problema persiste por séculos?

O que diria Tiradentes se pudesse ver em que se transformou o Brasil desde sua partida, em 1792? Governos vieram e foram, e os impostos aumentaram. O ouro praticamente já não existe mais; as antigas jazidas hoje apenas preservam as memórias de um povo que lutou com Tiradentes até o seu fim.

Seria essa uma luta com causa perdida? Seria essa uma causa desvirtuada pela Coroa Portuguesa e abraçada pelos governos posteriores, que a perpetuaram até os dias atuais?

Convido a todos nós a refletirmos sobre a causa que levou Tiradentes a perder sua vida na forca.

A tributação mudou? Sim, realmente mudou — e se tornou ainda mais sagaz. Hoje, ela apenas não lhe enforca, mas te condena a uma pena perpétua de impostos.

Em 2026, o Brasil continua entre os países com maior carga tributária do mundo: os impostos representam cerca de 34,2% do PIB, segundo dados do Tesouro Nacional. No ranking global do Banco Mundial, o Brasil aparece em posição intermediária (por volta da 90ª colocação), mas se destaca negativamente por oferecer o pior retorno em serviços públicos entre as nações com alta arrecadação.

Ou seja, o sistema é funcional para captar, mas ineficiente para ofertar retorno.

Como você, leitor, leu, esse problema é antigo. Apenas as figurinhas mudaram na alternância do poder, que nunca ouviu o grito de Tiradentes de verdade.

Será que nós poderíamos gritar o suficiente para que a máquina pública ouça?

Sinceramente, acredito que o nosso Tiradentes ainda há de nascer nas próximas décadas, pois cabe a nós abrirmos caminho para ele trilhar, através de nossas palavras e resistência a essa máquina estatal tão brutal.

Douglas Correa

Memória histórica • Direitos humanos • Consciência social

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