Caros leitores, convido vocês a refletirem sobre o espírito nacionalista da Copa. Como vemos na televisão e nas mídias sociais, nações estão unidas, povos reunidos em um só espírito: o da vitória. Isso mesmo, vencer.
Vemos desconhecidos abraçados, pulando e festejando gols. Não medem esforços e, muitas vezes, fazem viagens longas; alguns chegam até a sacrificar seus empregos para assistir aos jogos. Mas será que fariam o mesmo esforço para ajudar a combater a fome?
Essa não é uma pergunta retórica, mas, provavelmente, a resposta seria não. Muitos não sairiam do próprio lar. A inversão de valores é um câncer que corrói toda a sociedade. Fazem-se sacrifícios para assistir aos jogos, porém, quando é para fazer algo pelo semelhante, tornam-se cegos e surdos: nada veem, nada escutam.
Por que uma bola merece mais atenção do que um ser humano? Até quando uma taça será mais importante que uma criança faminta? Até quando? Você pode me responder?
Por que um operário ganha migalhas enquanto um jogador recebe tantos milhões?
Você sabia que os custos gerais de organização e infraestrutura da Copa do Mundo da FIFA estão estimados em cerca de US$ 13 bilhões (aproximadamente R$ 65 bilhões)? Esse montante abrange os investimentos feitos pelos países-sede — Estados Unidos, Canadá e México — em reformas de estádios, mobilidade e segurança para o torneio.
Ou seja, há dinheiro de sobra para jogar bola, mas, para combater a fome, sobram apenas moedas e câmeras para filmar a suposta boa ação feita pelos burgueses.
Vemos nações chorando por derrotas no futebol, mas, quando uma criança morre, pouco ou nada fazem. No mundo, cerca de 4,9 milhões de crianças morreram antes de completar cinco anos em 2024, incluindo 2,3 milhões de recém-nascidos. A maioria dessas mortes poderia ter sido evitada com intervenções comprovadas e de baixo custo.
Mas o que dizer de uma sociedade indiferente, que nada faz além de permanecer indiferente à causa? Uma população que tem as mãos manchadas com o sangue dessas crianças que morrem de fome.
Ah, se a hipocrisia matasse, certamente a raça humana estaria extinta.
O verdadeiro campeão da Copa de 2026 será a indiferença.
E viva os milionários de mesas fartas e corações vazios. Viva a hipocrisia!
Douglas Correa
Memória histórica • Direitos humanos • Consciência social
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