Caros leitores, hoje venho escrever sobre uma prática tão triste: o turismo de enchente. Todos nós já vimos, ou até mesmo praticamos, esse turismo sádico. Quando a solidariedade dá lugar às câmeras que expõem a desgraça do próximo, é sinal de que algo não está certo.
Quando uma vítima de enxurrada precisa esperar para ser salva porque alguém está gravando um vídeo para as redes sociais, surge um alerta sobre a idiotização causada pela busca por likes e comentários sádicos.
Infelizmente, estamos cercados por “web-heróis” que preferem salvar seu parceiro de game do que ajudar o próximo que grita por socorro, mas não é ouvido por causa dos headsets e dos óculos virtuais que se tornaram extensões do próprio corpo.
E ainda existem os heróis midiáticos. Esses estendem a mão apenas quando as câmeras estão ligadas. Porém, assim que elas se apagam, o amor ao próximo desaparece junto.
Estamos vivendo tempos sombrios em relação à empatia. O próximo, esse ser humano vivo que respira e necessita de oxigênio, carinho e ajuda, acabou sendo trocado pela necessidade de curtidas, visualizações e pacotes de dados.
Onde existem câmeras, muitas vezes não existe amor. Onde existem flashes, muitas vezes não existe empatia. Precisamos refletir sobre esse turismo sádico no qual se prioriza a melhor foto enquanto vidas se perdem pela inércia.
De nada adianta, na teoria, amar o próximo, chorar nas redes sociais lágrimas de crocodilo e, nos bastidores, agir como um caçador de tragédias.
Como todos vêm acompanhando, é provável que tenhamos novas enchentes. Então eu pergunto aos nobres leitores: será que a maioria está se preparando para auxiliar o próximo em uma eventual tragédia ou apenas preocupada em comprar mais power banks para registrar o caos?
A resposta, infelizmente, todos nós já sabemos.
O turismo de enchente está em evidência há alguns anos. Existem pessoas que viajam centenas de quilômetros apenas para tirar selfies em meio aos destroços, tentando comover a internet e ganhar likes em cima da dor alheia.
Muitas vezes, esses turistas da tragédia acabam perdendo a própria vida ao arriscar tudo por uma foto perfeita. Estudos mostram que a busca pela “selfie perfeita” já causou centenas de mortes ao redor do mundo. Desde 2008, mais de 500 pessoas morreram em acidentes relacionados a selfies, principalmente por quedas, afogamentos e acidentes ferroviários. A maioria das vítimas eram jovens entre 20 e 30 anos.
Depois, muitos desses casos ainda são romantizados e ovacionados pela própria internet.
Então fica a reflexão: vale realmente a pena expor a desgraça do próximo e, muitas vezes, perder a própria vida apenas para receber homenagens póstumas?
Douglas Correa
Memória histórica • Direitos humanos • Consciência social
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